
O ano era 1989, de um lado Fernando Collor, do outro, Luis Inácio. O primeiro, queridinho do país, andava de Jet-sky em reportagens, se auto-intitulava o “caçador de marajás” e prometia uma política social e econômica inovadora. O segundo, sindicalista, metalúrgico, fenômeno na oratória já prometia governar para as massas. Ambos, candidatos a presidente do país no segundo turno das eleições diretas de 1989 (a primeira desde 1964), travariam um debate na TV Globo, que dividiria opiniões e decidiria o futuro do país. De forma parcial, a emissora e alguns de seus diretores um dia após o debate, veicularam um compacto do mesmo no Jornal Nacional (horário de maior audiência) em que Collor foi abertamente favorecido. Como conseqüência, três dias depois foi eleito presidente.
Após o “debate” outras pessoas sofreram conseqüências, uma delas o jornalista Armando Nogueira, um dos idealizadores do telejornalismo em rede nacional pela TV Globo e um dos criadores do Jornal Nacional e do Globo Repórter. Na qualidade de diretor de jornalismo criticou pessoalmente Robert o Marinho (dono da emissora) e os profissionais envolvidos na tendenciosa "amostragem" do debate, deixando claro que não concordava com aquela postura e, que esse não era o papel moral da imprensa. Por conta de sua atitude corajosa, foi encostado pelo “alto-clero” da emissora e em 1990 demitido. A partir daí, desligou-se da imprensa não esportiva e dedicou-se totalmente as crônicas e jornalismo esportivo, que sempre foram suas grandes paixões.
O tempo passou, mais de 20 anos. No decorrer disso, Collor saiu pelas portas dos fundos de Brasília. Lula perdeu eleições, Collor voltou pelas portas da frente à Brasília, Lula foi eleito. Lula tornou-se “companheiro” da TV Globo, Roberto Marinho faleceu. Collor e Lula tornaram-se aliados e ambos atualmente gozam do poder um no legislativo e o outro no executivo.
Para o antigo e digno diretor de jornalismo da Rede Globo, o tempo também passou. Armando comentou programas como o Cartão Verde da TV Cultura e TV Bandeirantes. Em meados da década de 90 voltou a participar de programas na SporTV (canal da Rede Globo) onde após algum tempo apresentou um programa e sempre esteve presente nas “mesas redondas”. Mesmo sendo, um apaixonado pelo Botafogo sempre conquistou os amantes do esporte por suas criticas imparciais, românticas e incontestáveis. Ao longo da carreira trabalhou em programas de rádio, tinha uma coluna fixa estampada em sessenta e dois jornais brasileiros, cobriu quinze Copas do Mundo e sete Olimpíadas. Foi unanimemente escolhido o maior cronista esportivo da história do país.
Escreveu dez livros, todos sobre esporte. Entre eles, “O Homem e a Bola” e outro em parceria com Jô Soares chamado “A Copa que ninguém viu e que não queremos lembrar”. Obras que ele nos deixa com um legado moral, cultural e esportivo e com um sentimento forte no coração de que “ainda bem que existiu”.
Seu estilo elegante, original e pessoal sempre acabou colocando seus textos de futebol distante dos “clichês” esportivos. Assim, fez escola, fãs (eu sou um deles) e discípulos como Galvão Bueno, Zico, Pedro Bial, Joelmir Betting, Milton Neves, Osmar Santos, Wiliam Bonner, Zagallo, Lédio Carmona, Mauro Betting, Arnaldo Jabour, Juca Kfouri e tantos outros. Por estes (como todo grande professor) foi chamado de mestre, embora não gostasse do título.
Fora dos campos da escrita esportiva, foi junto a Chico Mendes, um dos ilustres filhos do distante estado do Acre. Já com metade de seu coração carioca foi testemunha ocular do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda e inovou ao descrever o fato em primeira pessoa, nunca antes feito na imprensa brasileira. Formado em direito, como passatempo tocava gaita, que aprendeu após os sessenta anos. Nos últimos anos lutou contra um câncer. E junto do esporte, sua outra paixão era a aviação, era praticante de ultraleves e foi fundador do clube carioca da modalidade. É por isso, que em sua roda de amigos e familiares, era chamado de comandante.
Enfim, este texto ou qualquer outro pretende apenas homenagear nosso comandante. Pois jamais, texto ou reportagem descreverá todo o legado que ele deixou por aqui. Certa vez, ele disse que Garrincha fazia da superfície de um lenço um latifúndio. Certamente, agora ele está em seu lugar cativo na mesa dos grandes jornalistas e esportistas, comentando lá de cima, como aquele rapaz de pernas tortas, está fazendo de uma nuvem um latifúndio.
É isso,
Obrigado comandante.
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